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29/03 – OPINIÃO sobre as manifestações: “O bocejar da nação”      

29/03 – OPINIÃO sobre as manifestações: “O bocejar da nação”

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Em entrevista concedida à Fundação Cláritas, Iradj Roberto Eghrari, analisa o atual momento social brasileiro, em meio a manifestações por melhorias na infraestrutura no país e fala do seu curso na Cláritas. “Democracia pressupõe o exercício de uma plena cidadania. E a cidadania não pode ser exercida se eu não perceber o outro. Eu não posso ser cidadão para mim mesmo. Eu sou cidadão em relação com os demais”, destaca.

iradj-eghrariEghrari é mestre em Engenharia Eletrônica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Atualmente, é gerente executivo da Ágere – Cooperação em Advocacy, membro do Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos (órgão ligado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República do Brasil), membro do Conselho Administrativo da Transparência Brasil e secretário Nacional de Ações entre a sociedade e o governo da comunidade Baha’í do Brasil. Também é professor do curso EaD de Participação Cidadã na Fundação Cláritas, em parceria com a Associação Civitas.

Cláritas – Como você vê as manifestações que eclodiram em junho de 2013?
Iradj Eghrari- Podemos avaliar as manifestações como o despertar de um povo a uma realidade à qual ele se deixava cegar. O povo não se envolvia de corpo e alma e nem com o mínimo interesse na solução dos grandes problemas da nação. Era como se os grandes problemas da nação fossem responsabilidade da classe política e se pensava que por vivermos em uma democracia representativa, o representante eleito é quem deveria resolver a questão. Se eles não resolvem, é porque eles são corruptos, ineficientes, porque o sistema é assim mesmo. Então, se cai em um conformismo.
Há várias teses de quem começou com as manifestações. Mas o que importa é o que isso desencadeou: um despertar da população que foi às ruas dizendo basta.
Mas isso não é suficiente. Tanto que vemos que as manifestações perderam muito gás. Não basta você ir à rua protestar. Vivemos em um sistema de governança democrático, uma governança democrática representativa/participativa, e temos que aprender quais são os caminhos para que a nossa voz consiga chegar às áreas onde as decisões são tomadas. Do contrário, fica-se somente na demanda e na apresentação de uma insatisfação. É preciso entender como funciona o sistema para que se possa agir dentro dele. E isso as pessoas não conhecem. Elas não sabem como funciona o Legislativo, o Executivo, não entendem o papel dessas instituições. E com isso eu passo a levantar a voz e dizer basta, mas eu não sei operar dentro do sistema.

E por que existe essa falta de conhecimento das pessoas com relação aos poderes?
Porque nós nos distanciamos do sistema. Nós o acusamos de corrupto, de ineficaz, de desnecessário porque não o entendemos e nos afastamos dele por aversão ao próprio sistema.

Pessoalmente, sinto que os dias do sistema político mundial estão contados. Não há como levar adiante o sistema democrático representativo – mesmo que ele seja participativo, como no caso brasileiro – onde, na verdade, não se participa de coisa nenhuma.
O novo sistema que eu acredito que vá surgir é baseado nos valores do indivíduo. E se votará realmente no indivíduo. Quando isso acontecer haverá uma percepção de cobrança. E o povo foi às ruas para denunciar também isso. Por isso não queriam bandeiras partidárias sendo erguidas junto com os cartazes. As bandeiras partidárias não tinham lugar porque ninguém está procurando um alinhamento partidário, mas está procurando um alinhamento de desejos, de expectativas.

A máxima “o gigante acordou” foi muito usada. Para você, antes de junho não havia uma participação ou um engajamento tão grande da população?
Eu acredito que não. O que havia era uma dormência que tomou conta do povo brasileiro depois da ditadura militar e, com a ditadura, o que tivemos foi um arrefecimento total da expressão de anseios e desejos, da vontade de mudar o país, de se engajar em alguma coisa que fosse transformadora. Isso desapareceu. E agora reaparece em forma de protesto.

Esta é uma questão a ser avaliada. O que nós tínhamos na década de 60, pré-golpe, era engajamento. E agora não houve engajamento, mas manifestações de descontentamento. O próximo passo seria ter todos esses milhões de pessoas que foram as ruas engajadas em alguma ação. O engajamento é o próximo passo.
Por isso eu diria que o gigante ainda está bocejando. Mas qual é a proposta de ação?! A partir de quais valores eu vou realizar uma ação? Esses valores também não estão claramente colocados ou percebidos. E por valores eu quero dizer que posso continuar seguindo uma proposta egocêntrica do ‘eu preciso, eu demando, eu mereço’ ou posso mudar o paradigma e pensar em uma proposta realmente coletiva, de serviço, engajamento, transformação, de se sentir recompensado por ver o outro crescer e se transformar.
Se nós mudamos esse paradigma, se nos nutrirmos com essa perspectiva do outro, alguém vai pensar por mim também. Eu também sou o outro de alguém. É isso que eu chamo de novo paradigma de guardiania coletiva da humanidade, ou seja, cada célula do corpo é guardiã do corpo como um todo e o corpo como um todo é guardião de cada célula.
A sociedade precisa aprender a funcionar dessa maneira colaborativa, onde o bem estar do outro seja minha preocupação. De certa forma, as ruas levantaram essa questão. Havia muita gente de classe média e classe média alta, que nem usa ônibus, lutando pelo preço de uma passagem justa. Mas isso é só a apresentação da demanda. E o que vai ser feito realmente? O que cada um vai fazer para educar aquele que não tem acesso a educação? Como as pessoas vão dedicar os seus fins de semana? Abrindo mão do lazer para que o outro possa se transformar ou ficando na posição confortável, levantando uma bandeira na rua, voltando pra casa e querendo que tudo continue como está porque não se quer abrir mão das próprias conquistas?!

Qual a importância desse tipo de participação para a democracia do Brasil?A democracia não é estática, não é uma fotografia de momento. Ela é um filme dinâmico; está em constante movimento. E se ela está em movimento eu também tenho que estar em movimento, não posso ser estático nessa imagem. E a pergunta que eu volto a fazer é: ‘Qual movimento você está disposto a fazer; do que você está disposto a abrir mão para que o outro tenha?!’
E eu não estou falando de uma atitude moralista ou religiosa. Estou falando de uma atitude de cidadania. Em geral as pessoas não estão dispostas a abrir mão das suas conquistas. E elas talvez tenham que mudar essa sua forma de pensar. Aí sim eu diria que nós temos uma democracia plena, onde a sociedade coopera de uma forma transformadora. Onde cada indivíduo sente seu papel perante a sociedade.
E o que estou dizendo é o quanto nós estamos dispostos, como sociedade, a trabalharmos juntos em processos transformadores de educação, de empoderamento da mulher, dos adolescentes etc. Como trabalhar isso como um papel cidadão. Não simplesmente dizer que o governo deve fazer. O governo tem que fazer sua parte e não estou querendo dizer que está satisfatório. Nem estou querendo dizer que nós temos que poupar o governo de realizar o seu papel. Mas eu vou ficar em casa?! Se for isso, eu não tenho uma verdadeira cidadania estabelecida. Democracia pressupõe o exercício de uma plena cidadania. A cidadania não pode ser exercida se eu não perceber o outro. Eu não posso ser cidadão para mim mesmo. Eu sou cidadão em relação com os demais.

Como você avalia a violência tão explorada pela mídia e nas redes sociais envolvendo possíveis manifestantes? E os Black blocs?
O evento no Rio, com a morte de um cinegrafista, levantou uma questão: há ou não manipulação por trás disso? Eu não quero fazer nenhuma análise ingênua da situação, e nem uma análise da perspectiva da teoria da conspiração. Mas o que eu posso dizer é que o fenômeno dos Black blocs é mundial.

A energia, que é mal aproveitada e acaba sendo levada para um romper de violência e destruição, mostra que há um trabalho a ser feito com relação a uma perspectiva de percepção da própria humanidade. Acredito que perdemos essa perspectiva de humanidade. Se uma pessoa está disposta a quebrar o patrimônio público, a bater em alguém, significa que perdemos a nossa perspectiva humana. E quando se perde a noção de propósito de existência, é válido partir para qualquer forma de violência. Até mesmo a violência política acaba acontecendo. A violência empresarial, do capitalismo devorador. Tudo isso são resultados dessa perda de propósitos dos seres humanos. Isso também tem que ser resgatado.

E existe também o outro lado, da atuação da polícia.
Faz parte da humanização da qual eu falava. A própria desumanização do aparato de segurança também faz parte disso. E há grandes esforços sendo feitos. Precisamos dar crédito para quem está trabalhando pela humanização da polícia, por uma humanização dos equipamentos de segurança. Também não devem ser ingênuos. Se há violência, a polícia detém o monopólio da violência, da força. Mas ela não pode usar essa força de uma forma que se volte contra o próprio cidadão o qual ela tem o papel de proteger. A própria polícia perde a sua centralidade.

Nas últimas manifestações, muitos cartazes diziam “Não haverá copa”. É possível fazer algumas previsões sobre o que acontecerá durante o campeonato e como será a atuação do governo daqui para frente?
Muitos analistas têm dito isto e eu concordo com eles: a população não é contrária à Copa, enquanto momento da disputa do futebol. Ela é contrária a esse processo que culmina com a priorização de obras monumentais em um país onde a pobreza e a miséria prevalecem. Daí o cinismo com que se levantam para pedir escola padrão Fifa.

Nesse sentido, haver uma Copa no Brasil nem cumpriu com o acordo, que era de que essas obras gerariam uma série de benefícios de infraestrutura, transporte e de equipamentos nas cidades para que elas pudessem também se beneficiar. Na verdade o país não estava preparado para isso.
Todas as cidades sedes da Copa estão sofrendo com caos generalizado exatamente naquilo que a Copa deveria trazer como benefício e não trouxe. Nesse sentido, não à Copa. Não a esse tipo de promessa que não alcançou o resultado esperado.
Mas nós devemos dizer sim à Copa como momento único de confraternização de países. Esse é outro elemento que podemos analisar. Se eu entendo bem de cidadania, como vou trabalhar o conceito de cidadania mundial no momento que vou receber tantos torcedores de diferentes países? Como eu vou me engrandecer, como povo?!
Deixando de lado a questão de infraestrutura etc., mas analisando o fato de que milhares de pessoas vão estar no país, circulando por cidades que antes elas não circulariam, como os moradores dessas cidades vão receber essas pessoas? E como eu vou exercitar a minha percepção de acolhimento e boas vindas a esse pessoal? Vou saber fazer isso? Eu fui orientado?
Nós perdemos isso também. Não falo em proselitismo de ideias, mas em ação verdadeira de irmandade. Não nos preparamos para isso. Será que ainda podemos nos preparar? Talvez sim. Ainda há tempo de despertar isso.

Como todas essas questões serão trabalhadas no curso de Participação Cidadã, da Cláritas?
O curso ajuda a entender o funcionamento do processo, da máquina de governança, como participar dessa máquina. Ele também trabalha conceitos de grupo, no aspecto específico da governança pública. Mas podemos extrapolar isso para várias outras instâncias.

Na verdade o curso instiga cada um a uma criatividade maior no exercitar o próprio papel de cidadania através de uma série de estudos de caso, experiências. E a riqueza está na participação dos inscritos, nas diferentes ferramentas oferecidas para construírem juntos. Não podemos ver um curso da Cláritas como um burocrático, no qual é preciso vencer uma série de etapas, responder a perguntas e ganhar um canudo. O curso deve ser visto como uma oportunidade de se aprimorar em estratégias de exercício cidadão.

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Entrevista extraída do site da Associação Civitas: http://acivitas.org.br/2014/03/26/o-bocejar-da-nacao/

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